quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Para Meditar - Trabalho


«Trabalhar até os burros trabalham. O que é preciso é saber trabalhar»

Quando lembro este enigmático conselho, bebido no leite de minha mãe, ocorre-me a imagem do pobre animal preso às voltas da nora ou a resfolgar, aborrecido, impotente e resignado à frente da charrua.
No seu suor há humidade criadora. Apenas o sal dos suores estéreis e o vazio do trabalho obrigado. Não há liberdade que cria, há imposição que amarfanha. Não há entusiasmo, mas pelas escuras a riscar rotinas, à espera da noite que lhe traga a cevada à mangedoura.
O burro da imagem que me visita caminha indiferente às estações. Avança por um sulco paralelo àquela procissão da vida, que diria Gibran, majestosa e altivamente submissa, caminha para o infinito.
Abro o livro do teu diálogo connosco, Senhor, e vejo que, tal como Yahveh no Antigo Testamento, também Tu usas titulos e comparações do mundo do trabalho: o pastor, o vinhateiro, o pescador, o semeador, o médico, a dona de casa... e não foste Tu também operário, filho de carpinteiro?

Peço-te três coisas nesta manhã:
Não nos deixes cair na tentação da preguiça, esse estranho hábito que nos faz descansar antes de trabalhar e repousar nos celeiros e colheitas antigas. Que encontremos a melodia da vida e o caminho que nos conduz a nós.
Não nos deixes cair na agitação que envenena os sorrisos, no trabalho desenfreado que é maldição e desejo de esquecermos quem somos. Que saibamos a medida certa entre a entrega desmedida e o descanso que nos recria.


(Henrique Manuel / Livro: mas há Sinais...) Rádio Renascença - Momentos de Reflexão

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Para Meditar - Segredo


Já aqui disse da minha admiração por essas pessoas que apanhando bofetadas da vida - de todos os lados, de toda a ordem e feitio - conseguem manter-se à tona das enxurradas, não desistem e, como se fossem começar o mundo, enfrentam mais fortes cada desafio.
Admiro essas pessoas! No meio de tenazes, sem descrer na beleza nem na bondade dos que as cercam, conseguem cantar e dançar a vida e têm ainda essa estranha capacidade para, em vez de amaldiçoar a escuridão, acender sempre um qualquer fósforo.

Será isto por saberem que a bondade é um investimento imune à falência, que a força não vem da capacidade fisica, mas da vontade férrea, e que a felicidade é a única coisa que podemos oferecer sem possuir e que cresce ao repartir-se? Será porque foram meninos a quem a dor fez crescer e aprender que um homem pode na verdade ser destruído mas não derrotado? Será coisa de fé, daquela fé que não move montanhas, mas ajuda a subi-las?

Talvez saibam que não estamos sós, que têm de fazer apenas aquilo que lhes compete fazer e depois entregar o resto Àquele que põe a sua assinatura nos acasos da vida e mostrou que o sofrimento e a morte não têm a última palavra e que junto da cada calvário há uma Páscoa.
Será este o segredo?


Bem sei, os paraísos são interiores...

(Henrique Manuel / Livro: mas há Sinais...) Rádio Renascença - Momentos de Reflexão

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Para Meditar - Beatice


«Há tanta beatice dentro das igrejas! Tanta gente que não é adulta na sua fé. Tanta gente que não dá um passo sem consultar o senhor prior. Tanto incenso a perfumar pessoas, o qual só é devido a Deus!»

É um desabafo colhido das cartas que aqui vão chegando. Assino-o. E não carregarei nas tintas ao acrescentar que beatas e beatos, no sentido deturpado da palavra, constituem um obstáculo como um perigo à pastoral como à pessoa do padre.
Mas não me compete nem interessa alargar por aqui este caminho. Podia ser longo. Fiquemo-nos pelo indevido e perigoso incensar de pessoas, para perguntar se a Igreja antes de ser uma comunidade de crentes em culto a Deus, não se fica, muitas vezes, por um estéril culto ao ego de cada um; se antes de ser um espaço de serviço ao outro, não o é de serviço ao próprio, um palanque ao sol, uma ribalta iluminada. Porque o Sr. Abade escolheu aquela e não esta, nomeou aquele e não outro, visita fulanos e não sicranos, porque quem faz as leituras é...
Antigamente os cristãos reconheciam-se pela sua vida,
distinguiam-se. O nome de Jesus Cristo fazia brilhar os olhos, valia o preço de um homem, tinha que ser cochichado no convés de escravos ou nas masmorras de Roma e celebrado na penumbra das catacumbas. Estava de tal forma no interiro do homem que era preciso dilacerar-lhe as entranhas se se quisesse arrancá-lo. O nome de Jesus Cristo não era dito com palavras de vento, mas de dinamite capaz de fazer dar uma volta completa à vida.
Não estará neste peixe-carne, nesta mornice, na insustentável leveza dum quente-frio, a razão de tantos partirem em busca de razões mais sólidas, de testemunhos mais vivos, alheios a vénias e a incensos?


(Henrique Manuel / Livro: mas há Sinais...) Rádio Renascença - Momentos de Reflexão

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Para Meditar - Padrinhos


Era uma vez a Mediocridade. Chegou a idade de ser baptizada e foi preciso um padrinho. Depois de aturadas reflexões foi decidido que o padrinho serio o Sr. Cunha.
Uma decisão sensata, qualquer bom padrinho deve ter algo do espectro daquele nome.
E a Mediocridade foi crescendo em estatura e em esperteza. Tornou-se quase imensa. Não é dificil, por isso, encontrá-la. Além do mais, e por via da regra, ocupa lugares cimeiros e bem iluminados.
Mas a Mediocridade tem outras características distintivas: aprecia o cinzento, e raramente sorri. Mediocridade que se prese não anda por aí a espalhar simpatias. Em criança ensinaram-lhe que muito riso pouco siso.
Também não fala, não pede e os seus lábios recusam-se a moldar a palavra obrigado. Fica-se pelos monossílabos, exige e vira as costas.
A Mediocridade não dispensa contratos e legislação. Pouco lhe importa se custam o preço de um homem.
Quantas mais leis, normas, papeis, burocracia, mais segura e poderosa. No reino da Mediocridade investida em chefia, o ceptro é o controlo; tudo é contado com minúncia, fechado, e aferido pela lei.
Consta que tem inimigos declarados. Mas ela conhece-os e aprendeu a mantê-los na mira. Liberdade, Competência, Criatividade, Partilha, Prazer no trabalho, são os cabecilhas dessa corja de insurrectos.
Mesmo tendo o
Sr. Cunha (Valente, é o apelido) por padrinho, e embora poucos o saibam, a verdade é que a Mediocridade investida em chefia sofre muito. Vive em pânico. Dorme mal, e até em sonhos consegue sentir as estratégias dos inimigos que, a custo, vai mantendo subordinados. Vive numa cela de prisão que, ela mesma, dia após dia, vai apertando e retirando janelas.
Rezemos, pois, pela Mediocridade investida em chefia.


(Henrique Manuel / Livro - mas há Sinais...)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Para Meditar - Boatos


Telefonou-me ao final da tarde de ontem. Que precisava de falar comigo. Há muito que não nos víamos. Quando chegou, reparei no seu ar cansado e na vincada sombra que lhe cobria os olhos. Alguém, na empresa onde trabalha, manchara a sua dignidade e comprometera-lhe o emprego com um boato.
Pensei na força destruidora que podem ter as nossas palavras - mentiras aparentemente inofensivas, mas por vezes desastrosas para a vida dos que nelas estão implicados.
A vida é feita de histórias que vão tecendo a grande história...


Havia um homem que tinha o hábito de espalhar boatos sobre o padre da sua paróquia. Um dia, tomado de remorsos, foi ter com o padre para que lhe perdoasse.
- Senhor padre, como é que eu me posso penitenciar?
O padre deu-lhe um conselho simples:
- Leve dias almofadas de penas para a praça, espete nelas uma faca, sacuda-as no ar e depois volte para casa.
O homem nada entendeu, mas assim fez. Correu para casa, pegou em duas almofadas e numa faca, foi para a praça, cortou-as e sacudiu-as no ar.
Feito o trabalho foi procurar o padre.
- Fiz exactamente o que o senhor me mandou.
- Óptimo! Agora, para compreender o mal que fazem as suas mentiras, volte lá.
- Mas para quê?
- Para recolher todas as penas que espalhou...


Boatos! Pode parecer estranha esta forma de começar o dia. Menos estranho será, dia acima, encontrá-los ou mesmo dar-lhes vida.
Podemos dizer que um boato é como um cheque.
Convém não endossá-lo enquanto não tivermos a certeza de que é verdadeiro.


(Henrique Manuel / Livro - mas há Sinais...)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Discurso de D. Jorge Ortiga - Presidente da Coferência Episcopal Portuguesa


A Assembleia Plenária da Conferência Episcopal é, sempre, experiência de profunda comunhão eclesial. Desta vez, a alegria da comunhão torna-se mais expressiva pela graça que nos é concedida da visita de Sua Santidade o Papa.
Como já foi referido em Nota Pastoral do Conselho Permanente da C.E.P (6 de Outubro de 2009): "A comunhão visível com o Sucessor de Pedro, fisicamente presente entre nós, será, mais uma vez, ocasião da expressão espontânea desse amor à sua pessoa, ao seu magistério e ao seu serviço universal e de fidelidade à Igreja".
Expressamos a mais sentida gratidão e queremos corresponder com a preparação consciente das nossas comunidades, de modo que a sua mensagem seja acolhida sem reticências por todos os cristãos.
A mesma comunhão eclesial faz com que manifestemos a D. Albino Mamede Cleto, Bispo de Coimbra, as felicitações pelos vinte e cinco anos de serviço episcopal e a D. Manuel Rodrigues Linda, novo Bispo Auxiliar de Braga, a solidariedade permanente de cada um de nós.


A IGREJA NO MUNDO

A C.E.P., norteada pela necessidade de repensar a pastoral nas suas dioceses, encontra-se mergulhada num momento num contexto de mudança civilizacional. Muitas perspectivas podem e devem ser equacionadas. Fiéis a uma responsabilidade histórica – que a minha presença no Sínodo dos Bispos sobre a África veio reforçar – importa que reinterpretemos a nossa vocação missionária. Para isso, teremos, por um lado, de continuar a acolher os imensos contornos do universo como espaço onde levar a semente do Evangelho; por outro, centrar a atenção nos nossos próprios espaços, onde nos apercebemos de um progressivo afastamento da mensagem cristã. Sempre interpelados pela missão, recordo a peculiar relação histórica entre a Europa e a África, para manifestar a particular solidariedade, no campo espiritual e material, com os povos de língua portuguesa.
Aceitamos, também, a gratidão manifestada pelo Sínodo às nossas Igrejas na Europa, sabendo que é nosso dever eclesial permanecer junto desses povos, inclusive através do envio de missionários que, por meio da inculturação, testemunhem a fidelidade a Cristo com o anúncio do evangelho e a entrega da vida.

Esta nova consciência missionária e a reflexão que dela fazemos, obriga-nos a repensar, à luz do Concílio Vaticano II, o papel da Igreja no mundo. Durante muito tempo apenas vimos “o mundo da Igreja”. Hoje, é inequívoco que não existe o “mundo da Igreja”, mas que Ela deve estar no meio do mundo>, não como senhora mas como serva. Estar no coração do mundo é já uma luta a travar, uma vez que a mudança que modernidade ocidental trouxe consigo deslocou o cristianismo do centro para a “periferia dos dispensáveis e dos irrelevantes”.
Curiosamente, na fragilidade desta periferia podemos reencontrar a nossa identidade cristã, a qual se plasma na única segurança que vem de Cristo. É neste contexto de humildade, que teremos de passar duma atitude de detentores da verdade para uma transparência da verdade, de emissores únicos e autoritários a peregrinos dialogantes nesta mesa comum da procura. Nunca podemos renunciar ao encargo que nos é confiado de apontar a urgência dum encontro com a Verdade. Sabemos que o ser humano se desfigura sempre que não é capaz de se confrontar com Ela e vive na persistente “ditadura do relativismo”, ou seja, no comodismo de quem se demite de pensar com rigor a realidade.
Segundo Santo Agostinho, a verdade, que também é dom, é maior do que nós e é-nos primeiramente dada. Em “qualquer processo cognoscitivo, a verdade não é produzida por nós, mas sempre encontrada ou, melhor, recebida”, afirma a encíclica Caritas in Veritate (n. 34). Podemos então concluir que, sendo a verdade um dom recebido por todos, pode constituir-se como
força que unifica a Humanidade e promove a universalidade dos povos.
Compete-nos, por isso, sair do “nosso” mundo para provocar encontros com todos e ouvir as suas inquietações e dramas e, na comunhão com todos, semear a sede duma redescoberta do sentido para a vida que só Deus oferece. Este encontro dialogante acontecerá, ou deverá acontecer, através de uma presença, silenciosa mas de testemunho, da Igreja nos mais variados ambientes.
A missão está aí e é desafio que devemos encarar.
Os “mundos” esperam-nos e teremos de lá chegar. A sociedade portuguesa é, ainda, detentora de profundas marcas cristãs. Trata-se de avivar o que parece morto e situar o Evangelho neste contexto que parece contradizê-lo em muitas dimensões.
Como pode, então, a Igreja convergir com o mundo neste jogo de fronteiras e de procura da Verdade? Acredito que é, precisamente, apostando no desenvolvimento integral da pessoa, na educação para os valores e restituindo a dignidade à instituição familiar, como nos recorda o Santo Padre na encíclica Caritas in Veritate.

TEMPO DE MUDANÇAS

O trabalho só faz sentido se dinamizado em conjunto com múltiplos parceiros. A actual condição da sociedade portuguesa solicita da Igreja uma atitude muito concreta. Qualquer mudança projecta-nos para um futuro em aberto, uma infinitude de possibilidades que, a seu tempo, se concretizam ou desvanecem. Este é o tempo de mudança de governo e, neste sentido, perspectiva-se uma nova fase de relacionamento com o poder civil.
Hoje é consensual a autonomia entre Igreja e Estado. A laicidade é uma realidade e, no dizer do Papa João Paulo II (Fevereiro de 2005): “longe de ser um lugar de colisão, é realmente o âmbito para um diálogo construtivo, no espírito dos valores de liberdade, de igualdade e de fraternidade”. Este “diálogo construtivo” é o nosso permanente compromisso e queremos continuar a cooperar na linha da Lei da Liberdade Religiosa que consigna que não pode ser tratado como igual o que é diferente (Art.º 5º) e cria espaço legal para uma Concordata que testemunha o específico da Igreja Católica nos vários quadrantes. Não queremos pretender um Estatuto de privilégio. Caminhamos como povo português e trairemos a nossa missão se não lhe oferecermos uma mensagem que alguns podem não reconhecer como necessária. Aceitamos a lógica da liberdade.

PRIORIDADE DA EDUCAÇÃO

Torna-se prioritário olhar para a Educação e reconhecê-la como elemento fundante e estruturante da sociedade portuguesa, comportando responsabilidades, quer para a sociedade em geral quer para a Igreja em particular. A educação apela a acções que favorecem o desenvolvimento intelectual, afectivo, espiritual, físico e moral da pessoa humana, tendo sempre como objectivo a tomada de consciência da própria pessoa e o autodomínio. É necessário, portanto, ter a capacidade de abrir horizontes e promover a totalidade da pessoa, nas suas múltiplas dimensões: intelectual, afectiva, física e espiritual… Só um projecto onde se fomentem os valores garante um humanismo com futuro.
Daí que algumas coordenadas do ensino em Portugal nos inquietem. Importa ter a coragem de o repensar e não caminhar com soluções parciais e ao sabor dos ventos e conveniências corporativas e políticas. Sem valores verdadeiramente assumidos, a educação não acontece, o relativismo ganha foros de “norma”, a família desestrutura‑se, perde as suas coordenadas de referência e até de autoridade e a vida social corre o risco de se tornar ponto de “desencontro”. Muitos já o referiram e nunca se pode esquecer. A crise está na ausência de valores. Poderá parecer que temos uma sociedade de progresso e verdadeiramente desenvolvida. O actual momento da sociedade já o desmente e o futuro poderá reservar-nos algumas surpresas.
Educar para os valores deve permitir uma pluralidade plausível e séria de propostas, de modo que, segundo o princípio da subsidiariedade, seja permitido aos pais escolher o projecto que querem assumir para os seus filhos. Os pais necessitam da concretização deste direito. E para que isto seja uma realidade, o ensino não pode ser estatizado em absoluto, de uma forma sub‑reptícia e compulsiva, como parece ser essa a vontade de muitas políticas pseudo‑educativas. Também na educação, a democracia passa necessariamente pela justa autonomia e descentralização estatal.
A par da necessária pluralidade e qualidade de oferta, torna-se imprescindível sensibilizar,
consciencializar e responsabilizar as famílias, para que sejam capazes de interpretar a sua missão, neste ambiente de uma sociedade com sinais de desorientação e imaturidade. Em muitos casos, podem ser necessários gestos e atitudes frontais, manifestando um justo inconformismo cívico, a fim de que seja respeitada e legislada claramente a liberdade de opção dos pais sobre a educação dos seus filhos.



A FAMÍLIA E OS VALORES


A “família tornou-se a célula primeira e vital da sociedade” (FC 42), uma vez que possui vínculos vitais e orgânicos com a mesma sociedade. Na verdade, representa a primeira escola da sociedade e, como tal, local privilegiado para a aprendizagem dos valores éticos e cívicos.
A nossa história atesta que a instituição familiar tem sido uma escola positiva e fundamental. Foi ela que promoveu uma consciência viva da liberdade pessoal, incutiu a importância das relações interpessoais, estimulou uma verdadeira educação dos filhos e, no amor mútuo, abriu-se a uma necessária procriação responsável.
Hoje, a família encontra-se exposta ao relativismo dos valores, o que estará a degenerar em anti‑valores: rupturas familiares, crise social da figura do pai, dificuldade em assumir compromissos estáveis, graves ambiguidades acerca da relação de autoridade entre pais e filhos, o número crescente dos divórcios, a praga do aborto, o recurso cada vez mais frequente à esterilização e a instauração de uma verdadeira e própria mentalidade contraceptiva (cf. FC 6).
É, pois, fundamental que a família descubra a sua identidade. O que é, e também qual a sua missão na sociedade. Cada família é chamada a descobrir o apelo de Deus dentro de si e “tornar-se aquilo que é” (FC 17).
Se a emergência educativa passa pela família, nunca nos poderemos cansar de anunciar o seu verdadeiro estatuto e denunciar campanhas que pretendem dar uma orientação contrária às características que, queiramos ou não, se revestem de uma dimensão cultural e antropológica e que, por essa razão, nunca podem ser consideradas ultrapassadas ou retrógradas.
Continua a infiltrar‑se, em muitos casos de uma maneira camuflada, a “teoria do género”, como verdadeira ideologia apostada em redefinir a família, a relação matrimonial, a procriação e a adopção. Ninguém ignora os problemas reais com os quais a instituição familiar se debate quotidianamente. Perante estas novas problemáticas, vão surgindo tentativas de solução baseadas nos valores tradicionais de liberdade, igualdade e saúde que, para além dos seus significados verdadeiros, começam a ficar mergulhados num conjunto de ambiguidades, desviando-se duma antropologia sadia e verdadeiramente confirmada pela genuína cultura.
Em muitos casos, a justa liberdade da mulher já não encerra uma verdadeira emancipação das discriminações sociais e do poder autoritário do homem. Enveredou por uma competição entre os dois sexos, onde aparece com evidência a rivalidade e o antagonismo que conduzem a uma procura da afirmação individual, quando deveria estruturar-se em termos de solidariedade e complementaridade responsável. A violência doméstica prolifera e o desencanto familiar multiplica-se.
Determinadas concepções de igualdade pretendem sublinhar a diferença natural entre homem e mulher como irrelevante e propõem a uniformidade de todos os indivíduos como se fossem sexualmente indiferenciados, com a consequência inevitável de considerar os comportamentos e orientações sexuais equivalentes. Assim julgam que cada indivíduo tem o direito de concretizar livremente e, em muitos casos até mudar, as próprias escolhas segundo as suas preferências, desejos ou inclinações. As uniões homossexuais pretendem apresentar-se com estatuto idêntico à família.
Também na área da saúde reprodutiva, sob o pretexto da prevenção e da preocupação por evitar as doenças, aconselha-se o exercício meramente amistoso, ou até simplesmente lúdico, da sexualidade, não a integrando numa perspectiva de verdadeiro amor aberto, responsavelmente, à procriação. Neste terreno, o aborto é banalizado com orientações legais que desrespeitam o valor indiscutível da vida e assim o decréscimo da natalidade atinge níveis preocupantes, motivados por interpretações egoístas do dom da sexualidade.
Trata-se duma verdadeira campanha ideológica que não tem em consideração as implicações antropológicas. Se isto acontecesse, tais comportamentos deviam ser considerados eticamente inaceitáveis. Urge, por isso, a responsabilidade de restituir aos sagrados princípios da liberdade, igualdade e saúde os seus verdadeiros conteúdos em favor duma convivência responsável perante um amanhã que deve ser continuamente repensado dentro dos parâmetros dum humanismo integral.
O papel da Igreja será sempre de proposta e defesa da dignidade humana, independentemente da ideologia ou crença religiosa dos indivíduos, aliando o respeito com a coragem. Sentimos o dever de oferecer um contributo para uma sociedade constituída por homens e mulheres verdadeiramente livres e iguais. Em muitos casos seremos incompreendidos, mas o que julgamos ser a verdade sobre a vida humana deve prevalecer sobre o que é considerado política ou socialmente correcto e os aplausos da opinião pública reinante. Por vezes, a Igreja experimenta seguir em contra-corrente, mas sempre de modo respeitoso e dialogante, a mentalidades facilitistas que pretendem impor os seus critérios.
A atenção à família determina o conteúdo das prioridades a considerar pelas instâncias governativas. Não devemos cair num alarmismo ou visão negativa do actual momento histórico. Também não interessa ficar passivamente a apontar os culpados ou responsáveis pela actual situação social. Sabemos que o desemprego cresce e as empresas lutam com dificuldades ou já encararam a realidade da falência. A carência de bens essenciais entrou em muitas casas e não pode ser camuflada a resignação dura de pessoas simples que se vêem obrigadas à austeridade. A vergonha encobre muita miséria e os dados estatísticos, elaborados a nível nacional ou internacional, lançam alertas que os poderes deveriam ouvir para discernir caminhos que ofereçam aos pobres uma vida digna.
Esta é a prioridade das prioridades. As soluções não são fáceis de encontrar. Só uma convergência que não admite distracções permite uma sociedade justa e fraterna.



SACERDOTES, SERVOS DUMA NOVA HUMANIDADE

É meu grato dever recordar o Ano Sacerdotal. A Igreja é povo de Deus que participa no único sacerdócio de Cristo. Nesta abrangência de responsabilidades, os sacerdotes devem revitalizar o dom que receberam e sentir-se intérpretes duma missão ministerial capaz de rejuvenescer o tecido das comunidades, suscitando e reconhecendo o Sacerdócio comum dos fiéis. A todos e cada um dos sacerdotes, gostaria de expressar a mais profunda gratidão pelo testemunho de fidelidade a Cristo e pedir que continuem a testemunhar maior transparência do Amor de Deus pela humanidade. Os Bispos de Portugal não só compreendem o novo e complexo contexto em que o ministério é exercido, mas estão, também, empenhados em discernir soluções capazes de a todos proporcionar as condições humanas exigidas para a alegria de serem intérpretes duma missão que, sendo de origem divina, se incarna na história, mostrando como Cristo continua a ser imprescindível para uma vida feliz.
Continuaremos empenhados em vivenciar um amor feito verdade a partir dum projecto de vida onde resplandeça a lógica do dom e o princípio da gratuidade capaz de constituir um Portugal caracterizado por um desenvolvimento integral para todos e, particularmente, para os mais pobres.
Que o Santo Padre, cuja visita queremos preparar com esmero e júbilo, nos encontre mergulhados neste serviço.

Fátima, 9 de Novembro de 2009

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz de Braga e Presidente da C.E.P

Retirado de: (http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=76034)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

SEJAMOS PROFECTAS


Ao ler por estes dias o Livro do Profecta Jeremias, peguei na esferográfica e escrevi aquilo que o meu coração sentia:

No capítulo 4 do Livro de Jeremias, o grande homem de Deus que ficou conhecido como o ” Profecta das Lágrimas” devido ao seu coração sensível pelo sofrimento do seu povo, mostra-nos uma das maiores demonstração do amor pelo próximo encontrada no Antigo Testamento.
Ao receber as revelações da parte do Senhor Deus sobre o fim do Reino de Judá, com a destruição da cidade e do templo de Jerusalém e do exílio do povo judeu para Babilónia, o Profecta Jeremias expressa um sentimento de profunda dor pelo destino dos seus compatriotas:


“Ah! Meu coração! Meu coração! Eu me contorço em dores. Oh! As paredes do meu coração! Meu coração se agita! Não posso calar-me, porque ouves, ó minha alma, o som da trombeta, o alarido de guerra. (Jeremias 4:19)
Mesmo sabendo que o Juízo Divino que vinha sobre Judá era uma permissão de Deus devido a apostasia e rebeldia do seu povo, ele cumpre fielmente o seu chamado de entregar a mensagem Divina, mas não deixa de demonstrar uma dor forte e um profundo sentimento de tristeza pelo sofrimento alheio.
A dor de Jeremias era a dor de quem ama o próximo como a si mesmo. Era uma dor sincera e verdadeira. Era uma dor que vinha das profundezas do seu emocionado coração.
Era a mesma dor que o Senhor Jesus sentiu ao entrar em Jerusalém:


“E quando chegou perto e viu a cidade, chorou sobre ela, dizendo: Ah! se tu conhecesses, ao menos neste dia, o que te poderia trazer a paz! Mas agora isso está encoberto aos teus olhos.
Porque dias virão sobre ti em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te apertarão de todos os lados, e te derrubarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem; e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo da tua visitação.”
(Lucas 19:41 -44)

Era uma dor que jamais poderia ser sentida por Leigos ou Religiosos enclausurados nas suas denominações, vivendo uma vida cristã teórica, egoísta e hipócrita.
Era uma dor de quem enxerga além dos interesses pessoais, da acusação, da falta de perdão e dureza de coração.
Ao analisar a situação vivida pelo Profecta Jeremias, fiquei a imaginar sobre a nossa atitude como Igreja de Cristo hoje, em relação a situação da nossa sociedade.
Não, não estamos em iminência de sermos invadidos por outra nação sobre juízo divino como Judá. Porém, hoje estamos vivendo dias muito difíceis em praticamente todas as áreas da nossa sociedade.
As nossas crianças, vítimas indefesas da pedofilia e crueldade de adultos irresponsáveis e perturbados, a corrupção dos políticos e do próprio povo em todas as áreas da sociedade (inclusive a Igreja), famílias desestruturadas com casamentos destruídos, jovens se perdendo nas drogas, violência sem fim… um domínio quase que total em todas as formas de pecados.
E nós como estamos agindo perante toda esta situação? Será que temos gemido, clamado, sofrido e chorado pela degradação dos verdadeiros valores na nossa sociedade? Será que temos dado a cara por esta causa ou temo-nos mascarado com as máscaras da cobardice?
Será que nos temos angustiado a ponto de sentir a dor dos “outros”, assim como Jeremias, em relação aos seus compatriotas?
Ou estamos agindo como “meros religiosos” e já perdemos a sensibilidade dos verdadeiros Profectas do Senhor e não nos importamos com os problemas alheios?
Será que temos perseguido anonimamente, aqueles que muitas vezes nos dizem verdades que doem e mexem com a nossa consciência. Será que como Cristãos e Baptizados não desejamos os mesmos sofrimentos do Profecta Jeremias para aqueles que clamam Justiça, Verdade, Honestidade, Fidelidade, etc.,etc…
Senhor, renova o nosso coração e restaura a nossa capacidade de sentir, assim como o Profecta Jeremias, um amor intenso e verdadeiro que procede de Ti, por todos aqueles que estão no caminho da destruição da nossa sociedade.
E assim possamos profetizar a restauração plena sobre os valores morais e espirituais do nosso povo.
Um Abraço em Cristo


Márcio Peixoto – Irmão Mestre

  NOTA DE FALECIMENTO É com muito pesar que informamos sobre a morte do nosso querido Irmão Fernando Sales Frias ou Irmão Salins como carinh...